Line profile, service profile e DBA na OLT Huawei: o que cada um faz

Se você já abriu uma OLT Huawei e encontrou ont-lineprofile de 1 a 47 com nomes como “teste2”, “novo” e “novo_definitivo”, sabe exatamente do que este texto trata. A bagunça de perfis não é desleixo: é o resultado de ninguém ter explicado o que cada um deles controla.

Os três níveis, do mais baixo ao mais alto

Traffic table: quanto de banda

É a camada mais básica. Uma traffic table define um contrato de banda: taxa garantida (CIR), taxa máxima (PIR) e prioridade. Nada mais.

huawei(config)# display traffic table ip from-index 0

  TID  CIR(kbps)  PIR(kbps)  Pri   Description
  ---  ---------  ---------  ----  -----------
    8      30000     300000     0   PLANO_300M
    9      50000     500000     0   PLANO_500M

A regra prática: uma traffic table por plano comercial. Se você vende quatro planos, deveria ter quatro tabelas com nomes que digam isso. Não vinte e três com números.

Line profile: como a banda chega até a ONT

O line profile é onde o GPON acontece de verdade. Ele amarra três coisas:

  • T-CONT — o contêiner de transmissão. É a unidade que a OLT usa para dar tempo de fala à ONT no sentido de upload.
  • DBA profile — a política de alocação dinâmica de banda associada ao T-CONT. É ela que decide como a capacidade da PON é dividida quando todo mundo quer subir dados ao mesmo tempo.
  • GEM port — o canal lógico que carrega o serviço, mapeado para uma VLAN.

O DBA tem cinco tipos, e a diferença entre eles é o que separa uma PON estável de uma PON que engasga:

Tipo Comportamento Onde usar
Type 1 Banda fixa, reservada o tempo todo Serviço que não pode oscilar, como voz corporativa
Type 2 Banda garantida, alocada sob demanda Link dedicado com SLA
Type 3 Garantida mais excedente até um teto Plano residencial e o caso mais comum em ISP
Type 4 Só excedente, sem garantia Melhor esforço, tráfego de baixa prioridade
Type 5 Combinação dos anteriores Cenário misto na mesma ONT

O erro clássico é usar Type 4 para plano residencial. Funciona com a PON vazia e degrada de forma perceptível conforme os assinantes chegam, porque nada é garantido a ninguém. O cliente mede velocidade cheia às 3h e metade disso às 21h.

Service profile: o que a ONT é capaz de fazer

O service profile descreve o equipamento, não o serviço: quantas portas Ethernet a ONT tem, se tem POTS para telefonia, se tem Wi-Fi, se aceita gerência por TR-069.

Aqui a regra prática é diferente: um service profile por modelo de ONT, não por plano. Uma EG8145V5 e uma HG8310M têm capacidades diferentes e precisam de perfis diferentes, mesmo que o cliente pague o mesmo valor.

Onde as pessoas se confundem

A confusão quase sempre é esta: tentar controlar velocidade pelo service profile, ou tentar tratar modelos diferentes de ONT com o mesmo line profile.

A separação mental que funciona:

  • Traffic table responde “quantos megas”.
  • Line profile responde “como esses megas trafegam na PON”.
  • Service profile responde “o que essa caixa na casa do cliente sabe fazer”.

Como organizar sem derrubar cliente ativo

Ninguém pode simplesmente apagar perfis com ONTs vinculadas. A migração precisa ser feita por convivência:

  1. Mapeie o que existe. Liste os perfis em uso e quantas ONTs estão em cada um. Boa parte costuma estar vazia e pode sair no fim.
  2. Crie o padrão novo em faixa separada. Se o legado ocupa de 1 a 47, comece o padrão em 100. A separação por faixa numérica evita confusão durante a transição.
  3. Migre por grupo pequeno. Comece por uma PON com poucos assinantes e valide velocidade real antes de seguir.
  4. Só depois remova o legado. Perfil sem ONT vinculada pode ser apagado com segurança.

A troca de line profile de uma ONT ativa derruba o serviço dela por alguns segundos. É rápido, mas não é transparente: faça em janela, não no meio da tarde.

O sinal de que a organização valeu a pena

Depois da padronização, um técnico novo consegue responder, olhando só o nome do perfil, qual plano aquele cliente tem e qual ONT ele usa. Antes, essa resposta exigia abrir o ERP, conferir a OLT e confiar na memória de alguém.

É esse o entregável real: não perfis mais bonitos, e sim uma operação em que o provisionamento deixa de depender de conhecimento tácito. Se você quer atacar essa bagunça na sua planta, é o ponto de partida da consultoria em GPON e FTTH. Se prefere que a equipe aprenda a fazer sozinha, o Curso GPON Huawei OLT MA5800 destrincha DBA, T-CONT e os dois perfis com o equipamento na tela.

Vale ler junto: como provisionar ONT na MA5800 pela CLI, que usa esses perfis na prática.